Justiçamento nas comunidades cariocas
A morte do ciclista Cláudio Rafael Landeiro, ocorrida em 11 de agosto de 2026, em Copacabana, reabriu um debate crítico sobre o justiçamento — a prática de impor punições à margem da lei. Enquanto linchamentos surgem de maneira esporádica nas ruas, as comunidades dominadas pelo tráfico e pela milícia enfrentam essa violência como rotina. Organizações criminosas implementam seus próprios códigos de conduta, promovendo julgamentos e aplicando penas que variam desde humilhações e agressões até a morte.
A dinâmica do tribunal do tráfico
Para a especialista em Segurança e Defesa, Júlia Quirino, a semelhança entre o caso de Cláudio Rafael e o que ocorre nas favelas está na rapidez com que uma acusação pode ser usada como justificativa para punições severas. Nas comunidades sob controle de facções armadas, essa lógica transcende a mera violência espontânea e se torna parte da estrutura de controle territorial.
“Não se trata apenas de uma reação coletiva, mas de práticas que integram mecanismos de disciplina e regulação social”, afirma Quirino. Em muitos casos, os moradores acabam aceitando esse controle, pois os criminosos se tornam mediadores de conflitos, desde brigas familiares até desavenças entre vizinhos.
Violência como forma de controle social
O delegado Paulo Saback, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), destaca que o tribunal do tráfico visa substituir o Estado. A facção busca monopolizar a força e a autoridade na comunidade, estabelecendo um código que regula aspectos do cotidiano para solidificar sua influência sobre a população.
Exemplos desse controle social brutal incluem a execução de Matheus Andrade de Freitas, em 2024, na comunidade do Fubá. Considerado suspeito de envolvimento com a facção rival, Freitas foi condenado à morte em uma sessão de crueldade, documentada em vídeo que circulou pela favela.
Casos de tortura e humilhação
Outro caso emblemático ocorreu em setembro do ano passado, quando dois usuários de drogas foram espancados na comunidade da Chatuba, acusados de roubar uma geladeira, e apenas um sobreviveu. Embora a polícia tenha indiciado os responsáveis, a obtenção de provas é complexa em um ambiente de medo.
A DRE observou que, apesar da similaridade nas punições entre o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Comando Vermelho (CV), as decisões são frequentemente informais e, em casos mais graves, submetidas a líderes que podem estar presos.
Impacto psicológico e controle territorial
Um exemplo recente de humilhação pública é o caso de duas mulheres que, após serem acusadas de aplicar golpes financeiros, foram submetidas a uma “peregrinação vexatória” na comunidade do Risca Faca. Durante a caminhada, acompanhadas por traficantes, foram agredidas e filmadas, estabelecendo um clima de medo que serve de exemplo para outros moradores.
Novas legislações e combate ao crime organizado
Em resposta a esses crimes, a lei sancionada em março de 2026, o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado (Lei Raul Jungmann), introduziu punições mais severas para facções. Com penas que variam de 20 a 40 anos, a legislação busca abordar práticas como bloqueio de vias, sabotagem de infraestrutura e domínio social estruturado, criminalizando práticas antes difíceis de serem enquadradas.